AS
BOLAS DE FOGO!
A minha Garanhuns dos anos 60, era uma maravilha. Pequena mas aconchegante.
Todos se conheciam, e não havia a menor possibilidade de se sair de casa sem
cruzar com um conhecido, de trocar um cumprimento, de se parar para dois dedos
de prosa.
Nesta
época, meu avô, o seu Vitalino, ficava diariamente parado envolto no seu
capote, de chapéu, encostado na janela do casarão de número 71 da Avenida Santo
Antonio, como a que vigiar a cidade.
Lá
permanecia desde a metade da tarde, ao bater das seis horas, quando descia para
a sua casa e ia tomar o seu chá ou leite quente – pois morreu aos 96 anos sem
jamais haver tomado um só gole de café!
Neste
horário, lá pelas seis horas da tarde, principalmente no mês de maio, já saia a
minha tia Mariquinha da casa de vovô, de mantilha na mão bem como de missal,
para ir religiosamente assistir as novenas do mês de maio.
Como
toda cidade pequena, neste mês romanticamente apelidado de “mês da noivas”, a
cidade se transformava.
Todas as noites, espoucavam fogos! Pouco depois das seis, passava, garbosa, a
Banda de Música da Prefeitura – verdadeira “furiosa” – a tocar todas as noites
as mesmas batidas marchinhas.
Lá
iam eles! Orgulhosos, com a molecada correndo do lado e apanhando os restos dos
foguetes que caiam ao derredor.
Os sinos da catedral de Santo Antonio, acompanhavam a festa.
Batiam
sem cessar, no seu blem-blem animado, vigoroso, puxados que eram pelo sacristão
lá no primeiro andar do coro da Igreja, através de duas cordas de cânhamo que
pendiam através de dois buracos no forro de madeira.
Pouco
depois da chegada da Banda Municipal à porta da Igreja, iniciavam os sacerdotes
o seu ofício.
Durante
este, o coral da Igreja cantava destoado as mesmas velhas músicas, ano após
ano, tais como “queremos Deus, que é o nosso Rei, queremos Deus que é nosso
pai...” destacando-se sempre a voz de dona Joaninha, uma senhora magrinha,
verdadeiro “cibito”, dona de uma voz de soprano extremamente alta, que se
destacava imensamente das suas companheira, indo reboar lá no fim da praça da
Igreja.
Até
meu pai, mouco, comentava: “eita que hoje Joaninha está danada...”.
Assistir
a estas celebrações era por vezes, divertido.
Padre
Tarcísio – de todos os celebrantes, o menos paciente – se pegava uma das
comadres conversando, não tinha a menor cerimônia de lá de onde estava, de
dar-lhes um esporro.
Se
quisessem conversar, que saíssem da Igreja!
De
outra feita, numa dessas ocasiões, conta a lenda que ele perdeu as estribeiras.
Um dia, entre uma tosse fina e outra (tosse esta que o acompanhava há anos)
conseguiram irritar tanto o Padre que este berrou lá de cima do altar: “querem
me fazer de besta? Porque é que acham que estou usando esta merda preta? É por
causa da e.... da minha mãe” – pois diziam que o seu sacerdócio era fruto de
uma promessa que a sua mãe fizera, e não escolha do próprio.
Como menino, de vez enquanto assistia a episódios que ainda hoje não posso
descrever, que dava alguma credibilidade as lendas da minha Garanhuns. As
empregada da minha casa que o digam...
Bom,
mas voltemos ao que interessa. O mês de maio e as Bolas de Fogo!
Mas,
que diabos tem maio com bolas de fogo?
Garanhuns
destes tempos, no inverno, era prolífica em duas coisas alem do frio: pulgas e
ratos!
Indo-se
a qualquer dos cinemas da cidade, voltava-se à casa com uma coleção de pulgas
que não tinha tamanho.
Era
cada pulga bem criada, que dava gosto. Catar pulgas nos cobertores e coloca-los
no sol tão logo este aparecia no inverno, era mandatório! Se não se procedesse
assim, corria-se o risco de ser “bebido” vivo pelas danadas das pulgas!
E
os ratos. Ah. Estes variavam de generosas catitas a monstruosos guabirus que
habitavam o quintal e o socavão do casarão da Santo Antonio.
Era uma luta árdua e diária contra estes bichos, próprios de uma casa antiga,
que diziam ter sido propriedade de Simoa Gomes, fundadora da cidade.
Minha
mãe, coitada, empenhava-se nesta luta diária duplamente motivada. A uma, pelo
fato higiene. Manter um casarão daqueles limpo, era uma tarefa árdua.
A
duas, pelo medo. Tinha verdadeiro horror a ratos. Não podia vê-los sem tremer.
Assim,
diligentemente comprava a cada final de semana, na feira do centro da cidade
aos sábados, uma profusão de ratoeiras e de gaiolas pra pegar ratos.
Armava-as
com cuidado, sempre com um bom pedaço de sebo ou de queijo, e, pela manhã, ia
com as suas secretárias do lar dar uma volta nos cantos do casarão para ver o
rendimento da noite.
Os
ratos e guabirus pegos nas ratoeiras, já estavam mortos e iam direto prum
buraco cavado pelo meu avô.
Os
pegos nas gaiolas recebiam demorado banho de água quente, transportando-os
desta para melhor...
Aí
entrou a idéia de menino. Já que os ratos pegos na gaiola iam morrer mesmo,
porque não fazer um pouco diferente? Vamos fazer uma experiência!
Acordando
mais cedo que o costume, corri a buscar uma das gaiolas pega ratos da minha
mãe, e escondi a danada num dos recônditos do imenso casarão. Lugar para
esconder é que não faltava!
O
segundo passo da trela, era de recolher um litro de gasolina do carro do meu
pai, um Mercury 57 do qual ele morria de ciúmes.
Conseguidos
os dois passos, restava apenas aguardar o final de tarde, para melhor apreciar
o mês de maio.
De
repente, lá vem a “furiosa” da Prefeitura tocando as suas marchinhas. Os sinos
iniciaram a tocar, e o foguetório começara.
Minha
tia Mariquinha, junto com as suas colegas beatas, acorreram a Igreja, e forma
rezar. O dia ainda estava claro.
Rezaram
por cerca de uma hora, e, com novo foguetório e marchas da Banda de Música,
desceram as senhoras beatas os degraus da Catedral de Santo Antonio, enlevadas
pelas rezas, em verdadeiro estado de graça.
Me
preparei num desvão da esquina que descia pro Pau Pombo.
Numa
das mãos, a gaiola com uns seis guabirus bem criados. Na outra mão, o litro
furtado de gasolina, e uma caixa de fósforos.
Colocada
a gaiola no chão, cuidei de banhar os guabirus na gasolina com o maior zelo! Os
bichos se agitaram.
Não
gostaram muito daquele banho mal cheiroso de gasolina, e puseram-se a pular
feito doidos dentro da gaiola, como que prevendo um desastre.
Em
seguida, risco um fósforo, acendo os guabirus e abro a porta!
Coisa
mais linda! Bolas de Fogo em plena avenida, homenageavam o mês de maio!
As
bolas, corriam como raios! Mas....desastre! correram pro lugar errado.Ao invés
de descerem a rua do Pau Pombo abaixo, resolveram correr Santo Antonio acima,
via degraus da Catedral justamente por onde desciam as beatas em estado de
graça!
Os
guabirus, desrespeitosos e pegando fogo, subiram pelas pernas de algumas,
reduzindo as suas meias de nylon a....nada!
Outros
guabirus mais afoitos, subiram na carreira escalando as paredes, a lateral da
Livraria São José, indo parar pegando fogo, no seu telhado.
A
“furiosa” deixou de tocar, o fogueteiro deu uma carreira q eu dava gosto de
ver. O povo, corria e gritava, e umas duas beatas desmaiaram.
Minha
tia tinha tido o azar de ter um “guabiru flamejante” nas pernas, e ter as suas
preciosas meias reduzidas a um material grudento nas pernas finas.
Foi
um Deus nos acuda!
Do
meu canto escondido, dava as minhas risadas, até que alguém me vendo apontou o
dedo e disse: “lá está o filho de Valderedo – ele deve ter feito esta merda
toda!”.
Acabou
a graça. Corri pra me esconder, mas já era tarde.
Algumas
vítimas das lindas Bolas de Fogo se refugiaram lá em casa, e logo a noticia do
culpado pela trela se espalhou.
Indignado,
meu pai ao mesmo tempo em que perguntava se eu esta doido, se desvelou em me
fazer dormir de “couro quente”,
Assim,
esta é uma das lembranças que tenho do mês de maio na minha Garanhuns de
décadas atrás.
A trela podia ser grande, mas não faltava imaginação à meninada
de uma modorrenta cidade do interior pra quebrar a rotina...