Ninguém é capaz de ser mais atual - quase um Profeta - como o bom Padre Antonio Vieira.
Ecoam vindas do Século XVII as suas palavras, como se tiradas de atual informativo.
Nos finais de semana prolongados como este, em que o não fazer nada impõe providencia contra o vazio e a indolência, nada mais produtivo do que preencher e iluminar o espírito e elevar a alma do que ler e reler ao sábio Antonio Vieira.
Entretanto, a sua leitura se torna além de prazeirosa, angustiante.
A constatação de que o progresso tecnológico e social desde o já distante Século XVII aos nossos dias, demonstra que o cerne o Homem permanece o mesmo.
Os pecados, são cometidos à granel, incidindo sobre os mesmos pontos que o Mestre Vieira tão bem retrata.
Ao reler este Sermão do Bom Ladrão, cuja releitura coincide neste final do ano com o introito de um novo governo no País, fatos mais que atuais, mais que escandalosos, mais que pecaminosos exsurgem do texto - daí a angústia. Doutra feita, passagens há que são cômicas, pois que trágicas, de uma tragédia humana cotidiana e tão revelada que nos faz rir.
Escolhi alguns trechos, aos quais comentarei brevemente, procurando não cansar aqueles que possam dar atenção a este tolo que ora escreve.
Inicia-se, magistralmente, assim o bom Sermão:
"Sermão do Bom Ladrão (1655)
do Padre António Vieira.
do Padre António Vieira.
Domine, memento mei, cum veneris in regnum tuum: Hodie mecum eris in Paradiso
I
| E |
Já nesta introdução, critica Antonio Vieira de forma sarcástica, a impropriedade do local no qual o ato se desenrola. Mais próprio para se falar em tal assunto, seria ao invés da Capela, as Cortes - pois o assunto central do discurso mais se encontra em quantidade e qualidade nesta que naquela. Os desatinos, desgovernos, desvios e pecados cometidos contra os súditos que buscam, muitas vezes, na fé uma saída ou uma balsa de salvação, não são, ainda hoje, os ouvidos mais próprios para receber a reprimenda.
E, entretanto, também o são - tendo em vista que hoje, mais que ontem, são os súditos do Estado que escolhem os seus príncipes, mormente aqui, onde de há muito deixaram de ser de escolha divina.
Hoje, não temos que rezar para que nasça um bom príncipe, mas escolher o bom príncipe, e fiscalizá-lo. O beneplácito divino foi substituído pelo exercício da cidadania.
Entretanto, como sabemos e sentimos, o exercício da cidadania exige a perda de maus hábitos, tais como a contemplação dos excelentíssimos umbigos, a perda do individualismo importado de outras culturas, como a americana, cujo exacerbamento do individualismo deu-se em contrapartida ao comunismo da guerra fria, mas que se perpetua até hoje - apesar de o mundo já sinalizar há anos que não existem mais condições físicas e naturais de manutenção de tão expensivo Status quo.
Prosseguindo no seu discurso, encontramos ainda nesta memorável obra, trecho que diz da responsabilidade do príncipe na escolha dos seus ajudantes, para que a ordem, a licitude e a propriedade administrativa seja mantida.
Neste trecho, surpreende-nos a liberdade com a qual trata o pároco, ao exemplificar esta responsabilidade do príncipe com atributos do próprio Deus ao entregar o Paraíso nas mãos de Adão, pois Vieira culpa a Divindade pela falha na sua escolha. Senão, vejamos:
"Pôs Deus a Adão no Paraíso, com jurisdição e poder sobre todos os viventes, e com senhorio absoluto de todas as coisas criadas, excepta somente uma árvore. Faltavam-lhe poucas letras a Adão para ladrão, e ao fruto para furto não lhe faltava nenhuma. Enfim, ele e sua mulher — que muitas vezes são as terceiras — aquela só coisa que havia no mundo que não fosse sua, essa roubaram. Já temos a Adão eleito, já o temos com ofício, já o temos ladrão. E quem foi o que pagou o furto? Caso sobre todos admirável! Pagou o furto quem elegeu e quem deu o ofício ao ladrão. Quem elegeu e quem deu o ofício a Adão foi Deus: e Deus foi o que pagou o furto tanto à sua custa, como sabemos. O mesmo Deus o disse assim, referindo o muito que lhe custara a satisfação do furto e dos danos dele: Quae non rapui, tunc exolvebam . Vistes o corpo humano de que me vesti, sendo Deus; vistes o muito que padeci, vistes o sangue que derramei, vistes a morte a que fui condenado, entre ladrões. Pois, então, e com tudo isso, pagava o que não furtei. Adão foi o que furtou, e eu o que paguei: Quae non rapui, tunc exolvebam."
Em época em que a vigilância da Igreja velava atenta sobre o inquestionável poder divino, é um atrevimento quase herético do autor, imputar-se a Deus por sua má escolha, e de quebra, de forma sutil, ainda indicar que não só Deus pagou o pecado, mas a coletividade Humana subseqüente que nada cometeu junto com o vilão da estória. Ainda do ponto de vista jurídico, não se limitava ao comitente a responsabilidade pela vileza dos seus atos, extravasando à sua prole a culpa.
Mas o que se destaca, é a indiscutível responsabilidade do príncipe pelas escolhas e pelos resultados - bons ou maus - destas.
Para finalizar, porque já se faz longa a escrita, em seqüencia à responsabilidade dos príncipes, adjunta o Padre Viera o critério para o qual os auxiliares do príncipe deverão ser escolhidos.
Neste ponto, salta-nos à vista a atualidade, após ler o que coloco para reflexão:
"Elejam assim os reis as pessoas, e provejam assim os ofícios, e Deus os desobrigará nesta parte da restituição. Porém as eleições e provimentos que se usam não se fazem assim. Querem saber os reis se os que provêem nos ofícios são ladrões ou não? Observem a regra de Cristo: Qui non intral per ostium, jur est et latro . A porta por onde legitimamente se entra ao ofício, é só o merecimento. E todo o que não entra pela porta, não só diz Cristo que é ladrão, senão ladrão e ladrão: Fur est latro. E por que é duas vezes ladrão? Uma vez porque furta o ofício, e outra vez porque há de furtar com ele. O que entra pela porta poderá vir a ser ladrão, mas os que não entram por ela já o são. Uns entram pelo parentesco, outros pela amizade, outros pela valia, outros pelo suborno, e todos pela negociação. E quem negocia não há mister outra prova: já se sabe que não vai a perder. Agora será ladrão oculto, mas depois ladrão descoberto, que essa é, como diz S. Jerônimo, a diferença de fur a latro."
Após este trecho, e ao assistirmos as eternas negociatas e negociações dos partidos políticos pelo poder, colocando por outros caminhos que não o do merecimento (capacidade = ostium) para participar como indicados para o governo que se inicia, dão clareza, legitimidade e atualidade ao ecoar destas palavras provindas de 1655!
Presenciamos acontecimentos tais como mensalões, mensalinhos, assassinatos de prefeitos que sabiam demais - e, pasmem: sua viúva hoje integra o governo daqueles que foram acusados de matá-lo - em uma descarada cooptação e compra do perdão - já que nenhuma investigação avançou, e nada foi esclarecido e menos ainda concluído sobre o caso.
Sequer a grande mídia, foi capaz de tecer qualquer comentário sobre o insólito fato desta viúva participar das convulsões intestinas do partido da atual presidente.
Quero estar errado, mas as projeções não são boas, e a atualidade e sabedoria do Sermão do Bom Ladrão, me assusta!
Quem viver, verá!

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